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Bianca Chetto, Estudante
Bianca Chetto
Comentário · há 6 anos
Também já fui contra as cotas para negros quando dissociadas do fator econômico. O pensamento que me fez mudar de ideia, é algo do qual o autor desse texto se aproximou mais, infelizmente, com todo respeito, não chegou exatamente no ponto que, para mim, foi fundamental. Como aluna de universidade pública, tive a oportunidade de discutir essa temática com pessoas que entraram por cotas, e que, teriam entrado independente delas. As cotas não diminuem a necessidade de estudo para passar no vestibular. Muitos dos alunos cotistas conseguem pontuações suficientes para entrar sem cotas.
A questão das cotas, para mim, não gira em torno da necessidade econômica de entrar em uma universidade de qualidade, ou de oferecer uma reparação econômica, social, pela escravidão, simplesmente. As cotas para negros (e índios) precisam existir por uma questão muito mais complexa: identidade. É uma questão de identidade. Se olharmos para a construção da nossa sociedade, dos nossos modelos institucionais, nossos costumes, vamos perceber que sofremos grande influência europeia. Essa informação as vezes é tomada como óbvia, e não fazemos a reflexão acerca do que ela significa. Ela significa que as roupas que usamos, os livros que lemos, os 'doutores' que valorizamos, os valores que adotamos, as nossas opiniões estéticas, o nosso imaginário cultural, se insere em parâmetros eurocêntricos. Paradigmas brancos, o que não é necessariamente ruim ou errado, é apenas como a nossa sociedade foi construída. É claro que houve influencia africana, indígena, claro! Mas é claro também que essa influência teve de ir abrindo caminho, lutando para ganhar um pouquinho de espaço. Não foi estimulada e sim, conquistada.
Pois bem, por que é importante inserir pessoas que partem de outros seguimentos identitários na universidade? Para responder isso eu pergunto: O que é (o que deveria ser) a universidade, se não um espaço de produção de conhecimento e, por consequência, de produção cultural?
É preciso que seja GARANTIDA a entrada de pessoas que fazem parte de outros seguimentos populacionais, de outras classes sociais e outras raízes étnicas para GARANTIR que essas pessoas também terão a oportunidade de construir o seu legado cultural. Não estou com isso falando em favor de uma segregação cultural, estou apenas dizendo que é preciso dar voz aos valores, aos autores, aos cantos, roupas, e ideias que vieram de outros espaços e que são tão importantes e tão enriquecedores quanto aqueles que tomamos como naturais mas que em verdade, não passam de herança colonizadora. É preciso que o negro tenha espaço para construir e afirmar sua identidade e sua herança, é preciso que o índio ajude a repensar os paradigmas de uma universidade que funciona, desde sempre, dentro de padrões que foram assimilados e não construídos por nós. E só a partir daí, só quando cada etnia tiver parcelas similares da produção de conhecimento desse país, poderemos acreditar que temos um país realmente igualitário, e daí florescerá uma cultura verdadeiramente brasileira. Afinal, o Brasil é isso. Ou deveria ser.
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